Liberdade interrompida?

Quando somos solteiras ouvimos muitas vezes que uma filho/a muda a nossa vida.

Mas ninguêm nos prepara realmente. Isso em todos os sentidos.

Mas quero escrever sobre o menos falado. Aquele que parece que é tabu na sociedade ou então somos catalogadas como más mães.

Como mãe solteira não estava e não estou preparada para todos os chamados afazeres. Mas até esses ainda podem ser relativizados. Falo da perca da liberdade.

Liberdade – aquela palavra tão forte que nos marca na juventudo. Tudo é invocado em nome da liberdade. E depois—- após termos ganho a luta pela mesma —- perdemos-a. Completamente.

Tudo o que era passa a não ser. Tudo a que nos habituamos deixa de ser. Estou a escrever isto e de repente tenho que sorrir. è incrível mas verdade que somos dominadas por um ser tão pequenino. Podemos lutar com os nossos pais, com os avós e sei lá quem, mas a “luta” contra o nosso filho perdemo-a antes de sequer a começar. 

A nossa praia passa a ser outra, a nossa comida passa a ser outra, as saidas passam a ser noites sozinhas, o cinema é substituido por parques (sem cafes e muitas vezes sem bancos), ter roupa passa para um plano secundário. Perfumes são substituídos por fraldas, jornais e livros por Rucas e Noddys. Dormir até mais tarde pq é fim de semana? Isso existe? A resposta está dada.

Nós, as pregadoras da liberdade, do individualismo, da liberdade em todas as suas vertentes passamos a ser dois em um. Passamos a ser um pacote. E que pacote!!!

Claro que agora seria a altura de falar das compensações. Ficaria bem. Mas não apetece.

Quero abordar os problemas com quais deparamos e que parece que são um tabu na nossa sociedade. Especialmente na portuguesa. De uma forma ou de outra é nos exigido conseguir tudo. Sermos tudo. E não se consegue. A não ser com dinheiro. Claro que uma Bibba Pitá se pode dar ao luxo de ter 5 filhos. Uma Angelina Jolie até chega aos 6. Mas essa não é a realidade do dia a dia. Com uma ama, uma cozinheira e alguêm a limpar a casa a realidade é muito diferente. E as festas podem continuar.

Quando ando de metro olho as caras das mulheres e penso: Como conseguem? Mulheres essas que não vão a festas que não tem um corpo escultural. Mulheres que não tem um personal trainer e para as quais isso passa para outro plano. Mulheres que raramente deverão ter algum prazer ou um hobby. Comparativamente com elaas até ainda posso estar contente. Essas são as verdadeiras mães.

E os filhos não sabem quanto esforço foi investido. Claro que muitos casamentos acabam. Não admira. O papel do homem ainda continua a ser em Portugal tao mínimo que assusta. Por muito que se fale, por muito que se veja —- não, nao venham com tretas. Bilu bilu é a realidade dos homens. Pouco muda para eles. Para a mulher muda tudo. Tanto que depois o homem até se pode interessar por outras. Porque afinal a dele já não tem os atractivos e a disponibilidade que ele precisa.

Afastei-me da temática. Nao queria envergar por esse caminho. Isso poderá ficar para outro blog. Mas como disse uma vez quero que os meus pensamentos sejam livres. Pelo menos aqui usufruir da liberdade.

Sim, eu sinto falta de improvisos, sinto falta de poder ir comprar tabaco ao final da tarde, de ir ao cinema, de ir à praia que eu gosto, de almoçar sem estar a olhar e levantar constantemente, de poder dormir num domingo, de ir correr, de ir dançar, de beber uns copos a noite, de ir ás compras, de flirtar, de ser irreverente, de poder sair das quatro paredes, de ser mais culta, de estar mais up to date, de ….. tanta coisa. 

Certamente que muitas mulheres ficarão chocadas. Não sei.

Ou então anda meio mundo a enganar o outro. Parece um tabu. Raramente oiço alguêm (mulher) se queixar. Porquê? Somos piores mães por admitir que sentimos falta de coisas que lutámos para alcançar, às quais nos habituamos. Sou má mãe por apetecer dormir até ao meio dia e ficar simplesmente uma tarde a ver tv ou um filme ou ir ás compras?

Acho que não.

Portanto começa uma nova luta. A luta em mim em aceitar que não sou igual a muitas outras, que quero opinar e que preciso de espaço e de liberdade às vezes. E finalmente entendo o pq dos meus pais a certa altura já não sairem. Entendo a acomodação a muitas coisas.

É tão fácil e simples a razão. Podes ser irreverente em qualquer idade. Mas dificilmente poderás ser irreverente enquanto mãe, sozinha e sem muito dinheiro (esta parte é importante e convem frisar). Como mãe solteira deparo-me com algumas dificuldades. E normalmente este tema é muito complicado de ser abordado quando se fala com o pai.

Mas é como uma amiga dizia. Tudo o que os pais (machos) pagarem será sempre pouco relativamente ao que nós pagamos. Porque existem coisas que não são pagáveis. Existem sacrifícios diários, pois pq são diarios, dia após dia sem parar que nos esgotam, que nos consomem. Qualquer valor estipulado será sempre pouco. Mas….. ai ao dizermos isto somos logo catalogadas como egoistas e “enganadoras” (não lembro do termo). Temos que descriminar os nossos custos com os filhos, timtim por timtim, listagens em excel. Mais tempo perdido. Se colocarmos efectivamente a verdade do dia a dia somos forretas e quase mal formadas.

O preço de ser mãe é alto para as mães. É sempre muito superior a qualquer pensão de alimentos que seja estipulada. Fico por agora por aqui.

Amo a minha filha!

~ by sanamey on August 8, 2008.

2 Responses to “Liberdade interrompida?”

  1. E viva as mães más!!!!!
    E viva os seres humanos verdadeiros!!!
    E viva a liberdade de sentir..e de dizer…!!!!
    E viva…a coragem de enfrentar cada dia…com uma face…
    tambem eu vejo no metro…no autocarro…mts rostos marcados..e cansados..q carregam pesos preciosos na sua vida, os filhos, os netos…q fazem “sacrificios” desmedidos em cada dia q se levantam. E…nem pai bilu…bilu, nem sociedade bilu…bilu..nem governantes bilu…bilu…aliviam, tornando algo mais facil, o peso destas mulheres..destas e das outras!

  2. Escrevi num blog entretanto extinto por falta de sentido, que só damos realmene valor às coisas quando as perdemos. Nesse post, referia-me especificamente ao contacto diário com os meus filhos, motivado pelo divórcio.
    Gostava que a minha liberdade não existisse, no sentido do teu post. Porque isso significava que tinha continuado a acordar os meus filhos com beijos todas as manhãs. Porque isso significava que tinha continuado a levar os meus filhos à escola todos os dias. Significava que tinha continuado a dar-lhes banho e o jantar, Significava que tinha continuado a dar-lhes as boas-noites ou a contar-lhes uma história. Significava que o contacto diário não teria que ser feito, maioritariamente, pelo telemovel. Significava que a minha liberdade não era só interrompida de 15 em 15 dias. Felizes os que, como tu, tiveram a liberdade interrompida.

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